A alergia a fármacos é um desafio crescente na Medicina, e pode manifestar-se através de sintomas que variam entre ligeiras erupções cutâneas e/ou situações mais graves, como dificuldade respiratória.
Em entrevista ao Correio de Sintra, a Coordenadora de Imunoalergologia do Hospital CUF Sintra, Marta Ferreira Neto, explica a importância de diagnosticar rapidamente reações a medicamentos e de assegurar um acompanhamento multidisciplinar diferenciado durante o processo, de forma a garantir a segurança dos doentes em tratamentos futuros.
As alergias a fármacos podem ter um impacto significativo no dia-a-dia e na saúde, reduzindo as opções terapêuticas para determinadas doenças. Quais são as mais frequentes?
A alergia a medicamentos é imprevisível e não dependente da dose tomada, na maioria dos casos. Esta situação condiciona e limita as opções terapêuticas para tratamento de diversas patologias, como as infeções (otites, amigdalites, pneumonias, entre outras) e a dor, no geral, que podem afetar todas as faixas etárias.
Estima-se que a alergia a fármacos afete 6 a 8% da população em geral, mas a sua verdadeira prevalência é desconhecida. Existem determinados grupos de medicamentos que têm maior prevalência de reações alérgicas, nomeadamente antibióticos, anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) e anestésicos gerais. Num estudo recente, a prevalência de alergia ao grupo de antibióticos beta-lactâmicos, que inclui a penicilina, amoxicilina e cefalosporinas, entre outros de maior utilização intra-hospitalar, ascende aos 59%. Já a alergia aos AINEs situa-se nos 43,2% e aos anestésicos gerais em cerca de 4%.
Que sinais de alerta podem indicar uma alergia a um fármaco?
O espectro de sinais e sintomas suspeitos da alergia a medicamentos é muito alargado. O sistema afetado, em mais de 90% dos casos, é o cutâneo, com aparecimento de comichão, borbulhas, vermelhidão e/ou inchaço da face e extremidades. Mas podem ser afetados outros sistemas, como o cardiovascular, provocando sintomas como dor no peito e tonturas; o gástrico, com vómitos e diarreia; e o respiratório, dando origem a queixas como tosse e falta de ar. Quando se manifesta em mais do que um sistema, a reação é considerada grave e é denominada de anafilaxia.
Em termos temporais, a reação pode ser imediata, surgindo até 6 horas depois da primeira toma do medicamento. Em caso de reação tardia (após as primeiras 6 horas), os sintomas e sinais também têm um leque extenso de expressão, desde o ligeiro, com, por exemplo, manchas vermelhas com comichão dispersas pelo corpo, às chamadas reações cutâneas graves a medicamentos.
Porque é importante diagnosticar rapidamente o alergénio, após uma reação alérgica a um fármaco?
Perceber a causa das reações a medicamentos, com a maior celeridade possível, é importante para minimizar a utilização de tratamentos alternativos, sem necessidade. Estes, na maior parte das vezes, são mais complexos, não são de primeira linha (ou seja, são fármacos potencialmente menos eficazes e com maior risco de efeitos colaterais) e, no caso dos antibióticos, aumentam o risco de resistência: quando suspeitamos de uma alergia não confirmada e, como tal, em vez de um antibiótico de primeira linha, usamos um de “largo espectro”, que combate uma ampla gama de bactérias, pode haver um aumento da resistência das mesmas a estes fármacos.
Como é feito o diagnóstico? Que tipos de testes ou provas permitem identificar o alergénio?
O diagnóstico é diferente consoante o grupo de fármacos a investigar. Os dois procedimentos mais frequentes são os testes cutâneos e a prova de provocação oral, realizados em Hospital de Dia, com o fármaco suspeito ou com alternativa, no caso de reação grave.
A prova de provocação oral consiste na administração de doses crescentes do fármaco, habitualmente com intervalos de 30 minutos, até perfazer a dose correspondente a uma toma, seguida de vigilância. No Hospital CUF Sintra, os doentes permanecem cerca de 5 horas sob vigilância, no total.
Por que razões é importante que este tipo de exames sejam realizados em ambiente de Hospital de Dia, como acontece no Hospital CUF Sintra?
Este tipo de investigação requer um ambiente físico adequado e o acompanhamento por uma equipa multidisciplinar, composta pelo imunoalergologista, enfermeiros e auxiliares de ação médica que saibam reconhecer rapidamente os sinais e sintomas de alarme, além de uma articulação com a farmácia hospitalar, para preparação dos protocolos a realizar.
No Hospital CUF Sintra, o Hospital de Dia permite condensar todos estes critérios e garantir a vigilância necessária para atuação rápida, no caso de reação. A maior parte dos casos precisa de, pelo menos, 2 sessões, para esclarecimento total do motivo da reação.
Sempre que temos uma reação alérgica, mesmo que seja ligeira, deve ser avaliada pelo imunoalergologista?
As reações alérgicas devem ser diferenciadas das reações adversas a medicamentos. Estas últimas não têm um mecanismo imunológico subjacente, dependem do mecanismo de ação do medicamento, das interações medicamentosas ou da toxicidade do fármaco associada a determinado órgão.
Assim, mesmo na presença de uma apresentação clínica ligeira, é importante a avaliação por um especialista em Imunoalergologia, no sentido de proporcionar a terapêutica mais adequada e minimizar as reações adversas.
No Hospital de Dia do Hospital CUF Sintra diagnosticam-se e tratam-se alergias de forma célere

Segundo a imunoalergologista, “a existência de um Hospital de Dia no Hospital CUF Sintra permite-nos proporcionar aos doentes com alergia a medicamentos um diagnóstico adequado, o mais célere possível, seguindo os protocolos europeus validados pela Academia Europeia de Alergologia e Imunologia Clínica. Temos capacidade para investigar, simultaneamente, 3 a 4 doentes por sessão.
Conseguimos ainda realizar, no Hospital de Dia, outro procedimento, que consiste na administração de imunoterapia subcutânea a aeroalergénios, um tratamento para crianças entre os 5 e os 12 anos que sofrem de asma e/ou rinite complexas.”









