Joana Lopes, Psicomotricista na Vaz Nobre Clínica 

Depois da pausa letiva, o regresso às aulas representa uma altura de reajuste para muitas crianças. A retoma dos horários, das exigências escolares e das responsabilidades do dia a dia pode ser desafiante, sobretudo após um período com rotinas mais flexíveis. Neste contexto, o apoio familiar assume um papel fundamental na adaptação e no bem-estar das crianças.

Este momento é particularmente desafiante nos primeiros anos de escolaridade e nas transições de ciclo, quando surgem novas disciplinas, professores, formas de organização e de estudo. Criar previsibilidade e reforçar hábitos consistentes, ajuda as crianças a sentirem-se mais seguras e preparadas para aprender.

Enquanto Psicomotricista especialista em desenvolvimento infantil, destaco pequenas estratégias no quotidiano familiar que podem facilitar, significativamente, este regresso à escola:

  • Definir horários regulares para o estudo, os trabalhos de casa e o tempo livre, contribui para a organização do dia, para a previsibilidade e estabilidade emocional da criança.
  • Planear testes e trabalhos com antecedência, recorrendo a quadros ou listas visuais, ajudando a uma maior preparação, menos esquecimentos e a sentirem-se mais confiantes e autónomos. 
  • Organizar a mochila de forma estruturada, com apoio de tabelas simples, permite à criança assumir gradualmente esta responsabilidade.
  • Garantir um sono de qualidade é essencial para a concentração, a memória e o equilíbrio emocional. Horários consistentes continuam a ser importantes mesmo após as férias.
  • Dividir o estudo em períodos curtos, intercalados com pausas, melhora a atenção e reduz a fadiga.
  • Valorizar o esforço e reconhecer o empenho, mesmo quando surgem dificuldades, fortalece a motivação e a autoestima. Sentir-se compreendida e apoiada ajuda a criança a enfrentar os desafios escolares.

Estas estratégias de organização, antecipação e planeamento envolvem processos cognitivos como a memória de trabalho, monitorização, planificação e a atenção. Mas não podemos esquecer que corpo e mente estão interligados.

O desenvolvimento psicomotor, do qual a tonicidade corporal é um elemento fundamental, ajuda a criança a ter consciência do seu corpo e a interpretar os sinais que este transmite – se está agitada, cansada, desconcentrada ou triste. Mas não se trata apenas de movimento: envolve também a noção do corpo, ou seja, a perceção que a criança tem de si própria e das suas possibilidades de ação, em diferentes contextos. Quando esta noção corporal se encontra bem estruturada, a criança sente-se mais segura nos movimentos e consegue também organizar melhor os seus pensamentos e emoções. 

Além disso, o desenvolvimento da praxia global (correr, saltar, lançar ou apanhar uma bola) e da praxia fina (desenhar, abotoar, escrever, cortar ou manusear pequenos objetos) contribuem para a capacidade de planear, organizar e executar tarefas. Estas competências motoras, quando trabalhadas, têm impacto direto na autonomia escolar: desde manter uma postura adequada na sala de aula até à realização da escrita de forma mais fluida.

Quando corpo e mente estão em equilíbrio, a criança encontra mais espaço para organizar não só os seus pensamentos e aprendizagens, mas também as suas emoções, tornando-se mais capaz e confiante de lidar com os desafios do dia a dia na escola.

Dra. Joana Lopes
Psicomotricista na Vaz Nobre Clínica