Duzentos anos após a morte de D. João VI, o Palácio Nacional de Queluz recuperou a atmosfera sumptuosa e os objetos originais do espaço onde o monarca se recolhia quotidianamente em oração na época em que ali viveu. Pela primeira vez, em mais de um século, é possível observar o oratório numa versão muito próxima da que D. João VI experienciou e penetrar na intimidade da sua fervorosa devoção católica.
O projeto de reconstituição do oratório de D. João VI foi apresentado esta terça-feira, 10 de março, data do bicentenário da morte do monarca, numa conferência que decorreu no Palácio Nacional de Queluz, com a presença de Susana Graça, Vice-Presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo; José Alberto Ribeiro, Diretor do Palácio Nacional da Ajuda; Maria de Jesus Monge, Diretora do Museu Nacional de Arte Antiga; e Gilberto Jordan, em representação da World Monuments Fund.
“Trata-se de um compartimento pequeno, mas de enorme valor histórico, simbólico e museológico”, começou por ressaltar João Sousa Rego, Presidente do Conselho de Administração da Parques de Sintra na sua intervenção. “Este projeto permitiu devolver ao oratório a sua dignidade arquitetónica, o seu enquadramento decorativo e a coerência histórica do acervo que nele se conserva. Foi possível restituir a este espaço os objetos que pertenceram a D. João VI e recriar a atmosfera que o caracterizava nas décadas de 1820 e 1830”, sublinhou.
“Esta intervenção aproxima os visitantes de “uma parte mais íntima, mais humana e mais completa da história de Queluz” — João Sousa Rego


João Sousa Rego destacou o aprofundado trabalho de investigação que permitiu a reconstituição historicamente informada deste espaço e enfatizou: “esta é a missão da Parques de Sintra: cuidar do património com conhecimento, devolvê-lo ao público com rigor e preparar o seu futuro com responsabilidade.” O responsável realçou, ainda, que esta intervenção aproxima os visitantes de “uma parte mais íntima, mais humana e mais completa da história de Queluz” e terminou reafirmando o compromisso da Parques de Sintra com a conservação, a investigação e a valorização do património.
Seguiram-se as intervenções do conservador Hugo Xavier, da arquiteta Inês Guerreiro e das conservadoras-restauradoras Joana Loureiro e Inês Magalhães, que, contando com a moderação de António Nunes Pereira, diretor dos Palácios da Parques de Sintra, explicaram todo o processo.
Fotografia de 1905 deu o mote para montar o “puzzle”
A investigação histórica realizada pela Parques de Sintra teve como ponto de partida uma fotografia datada de 1905. Esta imagem mostra o compartimento tal como foi conservado após a morte de D. Pedro IV, que ocorreu na Sala D. Quixote, contígua ao oratório – um acontecimento marcante que tornou esta área do palácio numa espécie de santuário para perpetuar a memória do Rei-Soldado.

Seguiu-se o estudo de outras fontes iconográficas e documentais, nomeadamente inventários da época, para perceber como era o espaço e quais os objetos que o decoravam. A junção de todas as pistas conduziu a uma conclusão surpreendente e paradoxal: muito embora o oratório de D. João VI seja um dos compartimentos mais reduzidos do Palácio de Queluz, é talvez a divisão de que subsistem mais peças originais, com destaque para o relevante conjunto de pinturas que fazem dele uma pequena galeria.
No entanto, a maior parte destes objetos encontrava-se dispersa, fruto das vicissitudes que o Palácio atravessou e das opções que foram sendo tomadas ao longo do tempo. Muitas das pinturas já tinham perdido as molduras originais, que estavam dissociadas, e tinham sido adaptadas a espelhos. Isto, porque, durante o século XX, foi considerado que algumas destas pinturas não teriam a importância ou o interesse artístico que estaria subjacente às mesmas e deu-se outra utilidade às molduras.


Reunidos todos os elementos e montado o “puzzle”, passou-se para a fase de intervenção, quer na sala, quer nas peças que D. João VI escolheu para decorá-la quando regressou do Brasil, em 1821. O trabalho envolveu uma equipa multidisciplinar de conservadores-restauradores, incluindo especialistas em pintura, madeira, metais, papel e têxteis, que trabalharam com o máximo respeito pela história material dos objetos.
Antes de devolver às paredes o revestimento com damasco encarnado que o caracterizava originalmente, foi levado a cabo o restauro do teto, dos vãos das portas e janelas e restantes elementos em madeira, bem como da pintura decorativa datada dos anos 70 do século XX, que se conservou até à atualidade. Assim continuará por baixo do tecido, constituindo uma prova histórica da opção que foi tomada nessa altura.
O baldaquino e a mesa de altar que se perderam foram reconstituídos e deu-se particular atenção à iluminação, uma componente importante do projeto para conferir a devida dignidade ao espaço e realçar as peças expostas.

A arte ao serviço da fé num espaço tão íntimo quanto sumptuoso
O oratório de D. João VI é um compartimento de dimensões reduzidas, mas muito denso. Um espaço tão íntimo quanto sumptuoso, onde sobressaem as pinturas que decoram as paredes forradas a damasco encarnado. Para lá do valor artístico, importa sublinhar o significado afetivo que teriam não só para D. João VI, como para as gerações seguintes que mantiveram este espaço inalterado durante mais de um século, preservando a sua memória.
Ao centro, destaca-se a pintura retabular com “São João Batista com o Cordeiro”, que é o santo onomástico de D. João VI, isto é, o santo do nome do rei. Trata-se de uma peça sui generis, uma vez que é constituída por uma pequena tela, da autoria de Arnaud Pallière (1784 -1862), que foi aumentada no Brasil, mas que permaneceu destacável e portátil para que o monarca pudesse levá-la consigo em viagem.


Outra pintura relevante é a “Santa Maria Madalena” deDomingos Sequeira (1768-1837), elaborada em Roma, quando o artista era pensionista do real bolsinho, ou seja, bolseiro de D. Maria I, e estava numa fase académica de aprendizagem em que a cópia fazia parte do processo. Por isso, não é uma pintura original, é uma cópia de uma obra do artista italiano Guido Reni.
A pintura “São José com o Menino”, atribuída à princesa Maria Francisca Benedita, tia de D. João VI teria, igualmente, um significado muito especial para o rei. Tal como a “Nossa Senhora da Conceição”, de Jean-Baptiste Debret (1768-1848), pintada no Rio de Janeiro, em 1816, por se tratar da padroeira de Portugal.
O projeto agora concluído implicou um investimento de cerca de 100 mil euros e vem complementar o trabalho levado a cabo na Sala D. Quixote, adjacente ao oratório, onde em setembro do ano passado foi reconstituído o leito onde morreu D. Pedro IV.
Todo este trabalho visa enriquecer a experiência de visita e permitir uma leitura e uma interpretação mais fidedigna dos aposentos que estiveram ao serviço de D. João VI, de D. Miguel I e de D. Pedro IV, figuras cuja memória é indissociável da história do Palácio de Queluz, onde a Parques de Sintra vai continuar a trabalhar na recuperação de outros espaços.
Fotografia: PSML
Texto: Parques de Sintra com Correio de Sintra









