Depois de mais de 40 anos de trabalho, José e Lurdes Bento mudam de vida

Com a reforma de José e Lurdes Bento, encerrou o último quiosque de jornais de Algueirão-Mem Martins, a freguesia mais populosa do país. Depois de mais de quatro décadas de atividade, o pequeno espaço junto à estação ferroviária deixou de ser apenas um ponto de venda de jornais para se afirmar como um verdadeiro símbolo da comunidade, onde, diariamente, se cruzavam notícias, conversas e amizades.

O quiosque fechou definitivamente na passada sexta-feira, 31 de julho, pondo fim a uma história iniciada em 1985, que acompanhou o crescimento e a transformação da freguesia ao longo de mais de 40 anos.

À frente do negócio desde a sua abertura, José Bento e a mulher, Lurdes Bento, decidiram agora terminar um ciclo marcado por dias de trabalho que começavam ainda antes do amanhecer e só terminavam ao final da tarde.


“Não fecho por falta de clientes. Estou apenas cansado e achei que chegou a altura de parar”, explica José Bento, que deixa a atividade com um profundo sentimento de gratidão para com a população.

Ao longo dos anos, o quiosque foi muito mais do que um local de venda de jornais, revistas, tabaco ou raspadinhas. Tornou-se um ponto de encontro diário, onde moradores se cruzavam, trocavam notícias, conversavam e partilhavam preocupações, fazendo daquele pequeno espaço um lugar de proximidade e convívio.

José Bento recorda que chegou a vender centenas de jornais por dia e que, durante vários anos, o quiosque foi o que mais exemplares do Correio da Manhãvendeu em Portugal, entre outros títulos da imprensa nacional. Com o passar do tempo, porém, os hábitos de leitura alteraram-se e as vendas foram diminuindo.


“Desde 2000 tem vindo sempre a descer”, afirma, atribuindo essa quebra à crescente utilização dos computadores, da internet e, mais recentemente, dos telemóveis, sobretudo entre as gerações mais jovens.

Apesar da mudança dos tempos, garante que nunca perdeu o gosto pelos livros e pela leitura, uma paixão à qual espera agora dedicar mais tempo. “Agora queremos viver a vida”, resume.

A despedida, admitem, não é fácil. José e Lurdes Bento vão sentir a falta dos clientes, muitos dos quais se transformaram em amigos ao longo de décadas. “Ficamos com um sentimento de muita gratidão pelas pessoas de Algueirão-Mem Martins”, confessam.


Depois de uma breve pausa, como quem procura as palavras certas para encerrar uma vida inteira dedicada ao quiosque, José Bento despede-se com simplicidade e emoção: “Até sempre. Obrigado por tudo.”

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