O cancro colorretal continua a ser um dos mais prevalentes em Portugal. Ana Craciun, gastrenterologista no Hospital CUF Sintra, explica que é possível identificar a doença em fases iniciais ou mesmo evitar que esta chegue a manifestar-se. Para isso, é fundamental não adiar os exames de diagnóstico, mesmo que não existam quaisquer sintomas. Lembre-se: o cancro colorretal pode evoluir durante anos de forma silenciosa.
Há medidas que podemos adotar no sentido de prevenir o cancro colorretal?
Sim, podemos adotar medidas simples como optar por uma alimentação rica em legumes, fruta, leguminosas e cereais integrais, bem como reduzir o consumo de carne vermelha e processada. Praticar exercício físico, manter um peso saudável e evitar o consumo de álcool e tabaco são também hábitos que permitem diminuir o risco. Mas nenhuma medida elimina totalmente esse risco. Por isso, os exames de deteção precoce continuam a ser essenciais, mesmo em pessoas que se sentem bem.
Qual a importância do diagnóstico precoce e de que forma pode ser determinante no tratamento deste tipo de cancro?
O diagnóstico precoce é decisivo na vida do doente. Muitos cancros do cólon e do reto começam em pólipos, isto é, lesões superficiais da parede do intestino que podem levar anos a transformar-se em cancro – as mais comuns chamam-se adenomas. Se forem encontrados e removidos antes dessa transformação, podemos evitar a doença. Um estudo internacional associou a remoção de pólipos a uma redução de 53% das mortes por cancro colorretal.
Quando já existe cancro, descobri-lo cedo também pode mudar muito o futuro do doente. A Direção-Geral da Saúde refere uma sobrevivência aos 5 anos próxima de 90%, em casos de cancro colorretal num estádio inicial, ao contrário dos 10% no estádio IV (o mais avançado). Além disso, em fases iniciais, o tratamento tende a ser menos agressivo e a preservar melhor a qualidade de vida.
Quais são os sintomas que justificam procurar de imediato uma avaliação especializada?
Em primeiro lugar, é importante esclarecer que os exames de deteção precoce, que devem ser realizados a partir dos 50 anos, destinam-se a pessoas sem sintomas, porque o cancro colorretal pode evoluir silenciosamente nas fases iniciais. Quando surgem queixas, é sempre necessária uma avaliação médica dirigida para esclarecer a sua causa.
Os principais sinais de alerta são sangue nas fezes; uma alteração persistente do funcionamento habitual do intestino; sensação de não conseguir esvaziar completamente o intestino; dor ou inchaço abdominal persistente; anemia por falta de ferro sem causa explicada; cansaço e perda de peso ou de apetite sem motivo aparente.
Estes sintomas podem ter muitas outras causas e não significam, por si só, que exista cancro. No entanto, nunca devem ser desvalorizados.
Se a doença evolui frequentemente sem sintomas, o que está ao nosso alcance fazer para assegurar um diagnóstico precoce?
Como o cancro colorretal pode evoluir em causar sintomas, os exames de deteção precoce devem ser realizados antes de surgirem queixas. Existem duas formas principais de o fazer: a pesquisa imunológica de sangue oculto nas fezes e a colonoscopia.
Em Portugal, recomenda-se que pessoas de risco médio, entre os 50 e os 74 anos, realizem o teste das fezes de 2 em 2 anos. Se o resultado for positivo, é indispensável realizar uma colonoscopia. Um resultado positivo não significa necessariamente que exista cancro, mas a investigação só fica completa depois desse exame. A colonoscopia também pode ser escolhida diretamente como primeiro método de deteção precoce.
Numa avaliação única, o teste das fezes deteta cerca de 74% dos cancros, mas apenas 23% dos adenomas avançados.
Já a colonoscopia deteta entre 89% e 95% dos adenomas com pelo menos um centímetro, muitos dos quais podem ser removidos antes de evoluírem para cancro. Importa sublinhar que o teste das fezes é eficaz quando repetido regularmente e se for seguido de colonoscopia quando o resultado é positivo.
Perante uma colonoscopia com boa preparação e que não revela alterações, recomenda-se, em geral, a sua repetição ao fim de 10 anos. Se forem removidos pólipos, o intervalo seguinte recomendado vai depender do número, do tamanho e das características das lesões.
A colonoscopia é o exame de referência quando se trata de cancro colorretal. Mas a sua importância vai para além do diagnóstico, certo?
Certo. A colonoscopia permite, num só exame, observar o interior de todo o cólon, recolher amostras, detetar e remover pólipos. É, simultaneamente, um exame de diagnóstico e de prevenção. Em casos bem selecionados, permite também remover completamente lesões cancerosas muito iniciais, evitando uma cirurgia e constituindo um tratamento curativo.
Para que o exame seja fiável, é fundamental que o intestino esteja bem preparado. A presença de líquidos ou sólidos pode esconder lesões pequenas, planas e pouco visíveis. Cumprir a dieta recomendada, beber toda a solução de preparação e respeitar os horários indicados faz parte do próprio exame. Se a preparação não for adequada, algumas lesões podem não ser detetadas e a colonoscopia poderá ter de ser repetida.
Quais são os benefícios, para o doente, de realizar estes exames em ambiente hospitalar, com equipas multidisciplinares e acesso a outros meios complementares de diagnóstico e tratamento?
O principal benefício é a continuidade e a rapidez dos cuidados. Não basta fazer o diagnóstico. É necessário obter o resultado da análise anatomopatológica, avaliar a extensão da doença, discutir o caso e iniciar o tratamento mais adequado. Em ambiente hospitalar, estas etapas podem ser organizadas de forma mais rápida e coordenada.
No Hospital CUF Sintra, tal como em toda a rede CUF, a equipa de Gastrenterologia trabalha em estreita articulação com Anestesiologia, Imagiologia, Anatomia Patológica, Cirurgia e Oncologia e Radioterapia.
Esta colaboração multidisciplinar e o acesso a técnicas endoscópicas avançadas permitem articular o diagnóstico e o tratamento num percurso contínuo, célere e adaptado a cada pessoa.









