A alteração do horário de funcionamento do Shopping do Cacém, que passa a encerrar às 20h30, está a gerar preocupação junto do teatromosca, responsável pela gestão do Auditório Municipal António Silva (AMAS), equipamento cultural propriedade da Câmara Municipal de Sintra e cedido ao grupo de teatro desde 2018.
Em reunião de executivo, Marco Almeida, presidente da Câmara Municipal de Sintra contestou as recentes declarações do teatromosca sobre o novo horário do Shopping do Cacém e garante que a Câmara de Sintra não participou nem votou a decisão de encerrar o espaço às 20h30. O autarca acusa o grupo de teatro de ter “faltado à verdade” ao associar o município à aprovação do novo horário.
Recorde-se que a companhia de teatro alertou, através das redes sociais, para os “constrangimentos” que a decisão, aprovada em Assembleia Geral de Proprietários, poderá causar no acesso ao auditório e para o eventual impacto na realização de espetáculos e outras iniciativas culturais.
A principal preocupação prende-se com a programação noturna do AMAS, uma vez que muitos dos espetáculos decorrem depois do encerramento do centro comercial. Entre os problemas apontados pelo teatromosca estão o encerramento da bilheteira, a necessidade de utilizar uma porta lateral para acesso ao auditório, através de escadas, e a indisponibilidade das casas de banho do centro comercial.

O assunto foi abordado na última reunião da Câmara Municipal de Sintra, pelo presidente da autarquia sintrense, que contestou as declarações públicas do grupo de teatro, esclarecendo que a autarquia não esteve representada na Assembleia Geral de Proprietários que aprovou a alteração do horário, rejeitando qualquer interpretação de que o município tenha participado ou votado favoravelmente a decisão.
“O grupo de teatro que explora o AMAS não foi correto com a Câmara, porque faltou à verdade. Estou à espera que olhe para as declarações que fez e reconheça que se excedeu no que disse”, afirmou Marco Almeida.
O presidente da Câmara explicou que a ausência do município na Assembleia de Proprietários está relacionada com a falta de uma estrutura nos serviços municipais de património que permita assegurar a presença em todas as reuniões de condomínios onde a autarquia tem responsabilidades.
Marco Almeida defendeu que o teatromosca deveria ter contactado previamente a Câmara para esclarecer a situação. “Dizer publicamente que a Câmara votou a favor do novo horário não é verdade”, afirmou, acrescentando esperar que o grupo de teatro “reponha a verdade” sobre o processo.
O autarca criticou a forma como a situação foi conduzida e defendeu uma relação institucional baseada no “bom senso e seriedade” entre o município e todas as entidades culturais com as quais mantém parcerias.
“As associações parceiras da Câmara de Sintra têm de ter sentido de responsabilidade”, afirmou Marco Almeida, destacando o apoio financeiro concedido pelo município aos grupos culturais do concelho e a cedência de equipamentos municipais para a realização das suas atividades. “A Cultura em Sintra é muito mais do que um milhão de euros que entregamos aos grupos de teatro nos últimos tempos”, desabafou.
Marco Almeida rejeitou, aquilo que considera ser uma tentativa de responsabilizar ou descredibilizar a autarquia e os seus serviços técnicos. “Não vou mesmo permitir que haja aqui uma tentativa de achincalhamento da Câmara e dos serviços técnicos”, declarou.
No final da intervenção, o autarca afirmou esperar que o teatromosca reflita sobre a forma como conduziu o processo, garantindo que a Câmara estará disponível para intervir e corrigir eventuais questões que estejam sob a sua responsabilidade.

O teatromosca reagiu entretanto às declarações de Marco Almeida, esclarecendo que “nunca afirmámos que a autarquia esteve presente e muito menos que votou a favor” da decisão tomada na Assembleia de Proprietários do Shopping do Cacém. “Sempre dissemos exatamente o contrário: a Câmara não esteve presente”, sublinha a companhia, em comunicado, através do seu diretor, Pedro Alves.
O teatromosca rejeita também as acusações de que terá “faltado à verdade” ou “se excedido no que disse”, garantindo que as suas posições públicas têm por base a documentação e as comunicações mantidas com o município.
A companhia reafirma que a alteração do horário “limita gravemente a atividade cultural noturna” do Auditório Municipal António Silva, uma vez que não está prevista qualquer possibilidade de prolongamento pontual do horário nos dias em que existam espetáculos ou outras atividades culturais após as 20h30.
Para o teatromosca, a questão ultrapassa o funcionamento interno do Shopping do Cacém, estando em causa “o acesso do público a um equipamento cultural municipal” e a possibilidade de o AMAS cumprir a sua missão. O grupo recorda ainda o investimento de 150 mil euros realizado recentemente no auditório, ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).
Companhia diz ter alertado a autarquia
Segundo o teatromosca, depois de ter sido informada da decisão do condomínio, a companhia voltou a contactar a Câmara de Sintra para alertar para as consequências da alteração do horário.
O grupo de teatro afirma ter enviado documentação aos serviços municipais e ao presidente da Câmara a 31 de agosto e, posteriormente, a 3 de setembro, tendo também solicitado uma reunião urgente para procurar uma solução para o funcionamento do equipamento.
A companhia considera que essa reunião continua a ser necessária, uma vez que a alteração já está a ter impacto no acesso do público ao AMAS e na realização de atividades culturais em horário noturno.
O teatromosca sublinha, contudo, que não pretende transformar a situação num conflito institucional nem entrar numa disputa com a administração do Shopping do Cacém. Defende que deve ser encontrada uma solução que permita ao auditório continuar a funcionar e a garantir o acesso do público à programação cultural.
Sobre as referências feitas por Marco Almeida ao investimento municipal na Cultura e ao financiamento das companhias profissionais de Sintra, o teatromosca garante que não pretende “um tratamento de exceção” e reafirma que o objetivo é encontrar, em articulação com a Câmara de Sintra, uma solução concreta para que o AMAS possa continuar a cumprir a sua missão enquanto equipamento cultural municipal.
COMUNICADO DO TEATROMOSCA:

TEATROMOSCA ESCLARECE O SEU POSICIONAMENTO SOBRE O AMAS — AUDITÓRIO MUNICIPAL ANTÓNIO SILVA E RESPONDE A AFIRMAÇÕES GRAVES DO PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE SINTRA
Decisão do condomínio do Shopping Cacém limita gravemente a atividade cultural noturna de um equipamento municipal
O teatromosca vem, uma vez mais, tornar pública a sua preocupação relativamente à situação criada pela decisão da assembleia de condóminos do Shopping Cacém de determinar o encerramento do centro comercial às 20h30, sem que seja disponibilizada a possibilidade de um prolongamento pontual desse horário sempre que ocorram atividades culturais em horário noturno, decisão que está a limitar de forma grave o funcionamento do AMAS — Auditório Municipal António Silva, no Cacém.
Relembre-se que este é um equipamento cultural de propriedade municipal que, desde 2018, é gerido e programado pelo teatromosca ao abrigo de um contrato de comodato, entretanto renovado por um novo período de 5 anos. Ao longo de quase uma década, a companhia tem assegurado a programação e o funcionamento do espaço, suportando não apenas a renda mensal, mas também todas as despesas associadas à sua atividade: seguros, licenciamento, manutenção da sala e dos equipamentos, água, eletricidade, recursos humanos, comunicação, produção, contratação de serviços externos, pagamento de cachês de espetáculos de teatro, dança e música, bem como direitos de autor e demais custos inerentes à programação cultural.
A decisão de encerrar o centro comercial às 20h30 tem consequências diretas sobre a missão pública do AMAS, particularmente sobre a realização de espetáculos, concertos, sessões de cinema e outras atividades culturais, especialmente, em horário noturno. Mais do que uma questão de funcionamento interno do Shopping Cacém, está em causa o acesso do público a um equipamento cultural municipal e a possibilidade de este cumprir plenamente a função para que foi criado e que levou, recentemente, a um investimento de 150 mil euros ao abrigo do PRR.
A Câmara Municipal de Sintra foi informada e convocada
Importa esclarecer, de forma absolutamente inequívoca, uma questão que tem sido objeto de discussão pública. O teatromosca nunca afirmou que a Câmara Municipal de Sintra esteve presente na assembleia de condóminos, e muito menos afirmou, em algum momento ou através de qualquer meio, que a autarquia votou favoravelmente a decisão de encerramento às 20h30. O que a companhia tem declarado, desde o primeiro momento, é precisamente que “a Câmara não esteve presente” nessa reunião, tal como também foi afirmado pelo Senhor Presidente do Município.
Fazendo fé no que nos foi comunicado pela própria administração do Shopping Cacém, a Câmara Municipal de Sintra foi convocada, como todos os outros condóminos, na qualidade de proprietária desse auditório, para a assembleia e foi previamente alertada pelo teatromosca para a importância dos assuntos que nela seriam discutidos. No dia 7 de junho de 2026, tendo conhecimento de que se realizaria a supramencionada assembleia de condóminos, o nosso coletivo enviou um email aos serviços municipais responsáveis, dando conta da situação e da necessidade de acompanhamento deste processo, afirmando que seria “fundamental salvaguardar o funcionamento regular do AMAS e garantir que o acesso dos públicos decorra em condições adequadas, respeitando, igualmente, as obrigações legais aplicáveis, designadamente no que diz respeito ao acesso normal e sem barreiras dos espetadores aos sanitários, às entradas e saídas do edifício e às respetivas saídas de emergência durante a realização das atividades devidamente comunicadas [à administração do Shopping]”.
Este contacto não surgiu isoladamente. Ao longo dos últimos anos, o teatromoscatem procurado articular com a autarquia nestas matérias, alertando para a necessidade de um entendimento mais próximo entre as diferentes entidades envolvidas na gestão e funcionamento do espaço.Em mais de oito anos, essa articulação traduziu-senuma única reunião, em 2024, entre o teatromosca e os serviços municipais responsáveis pela representação da autarquia nas reuniões de condomínio.
Perante uma situação com consequências tão relevantes para o funcionamento de um equipamento cultural municipal, consideramos legítimo perguntar por que razão não foi assegurada uma representação efetiva da proprietária do espaço na assembleia em que esta matéria foi deliberada, depois de a autarquia ter sido convocada e alertada para o assunto.
O problema não é uma disputa entre entidades. Trata-se de garantir o funcionamento de um equipamento público
O teatromosca não pretende alimentar uma disputa com a administração do Shopping Cacém ou qualquer outra entidade, nem transformar esta questão num conflito institucional.O que defendemos parece-nos simples: é necessário encontrar uma solução que permita ao AMAS, enquanto equipamento cultural municipal que deverá servir toda a população, funcionar em condições adequadas, com segurança e garantindo ao público o acesso à programação cultural, tal como tem sido realizado há mais de 8 anos, desde que o teatromosca passou a gerir o espaço.
Depois de termos sido informados pela administração do Shopping da decisão tomada em assembleia, procurámos alertar novamente os serviços municipais para as consequências concretas da mesma.No dia 31 de agosto, o teatromoscareencaminhou para os serviços municipais e para o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sintra, o e-mailque tinha recebido da administração do Shopping, alertando para a gravidade da situação e, num novo e-mail datado de 3 de setembro, no dia anterior ao início do festival MUSCARIUM#12, manifestando, expressamente, a sua “inteira disponibilidade e interesse em, na medida do possível, contribuir para a melhor articulação e tomadas de decisão que, no fundo, afetam a dinâmica e a própria missão deste equipamento municipal”, propondo uma reunião com carácter de urgência.
Essa reunião continua a ser, no nosso entendimento, indispensável.
A situação já está a produzir efeitos sobre o acesso do público ao AMAS e sobre a possibilidade de realização de atividades culturais em horário noturno. Não se trata, portanto, de uma questão meramente administrativa ou que poderá ter impactos no futuro.Trata-se de um problema que afeta atualmente o funcionamento de um equipamento cultural municipal.
Sobre as declarações públicas do presidente da Câmara
O teatromosca tomou conhecimento das declarações proferidas pelo Senhor Presidente da Câmara Municipal de Sintra, Dr. Marco Almeida, numa reunião pública da autarquia no passado dia 22 de setembro de 2026, e considera importante reafirmar que sempre procurou abordar esta questão com responsabilidade, ponderação e rigor.
As nossas afirmações públicas correspondem ao que temos transmitido à autarquia por escrito: a Câmara Municipal de Sintra foi convocada e alertada para a assembleia, mas não esteve presente nessa reunião.
É precisamente por termos procurado manter uma posição factual e responsável que não aceitamos que sejam colocadas em causa as nossas afirmações, com a acusação de que o teatromosca terá “faltado à verdade” e que se “excedeu no que disse”,e muito menos toleraremos que se adote um tom intimidatório relativamente a uma companhia de teatro profissional com quase três décadas de trabalho reconhecido por inúmeras entidades públicas e privadas nacionais e internacionais, que está simplesmente a defender as condições de funcionamento de um equipamento cultural municipal cuja gestão e programação lhe foram confiadas. E importará reafirmar, de forma clara e frontal, que o teatromosca assumiu essa missão de forma voluntária porque reconhecia enorme potencial nesse espaço cultural que, na altura, no nosso entendimento, se encontrava subaproveitado.
O nosso coletivo continuará, naturalmente, a assumir a responsabilidade pelas suas afirmações e a sustentar publicamente aquilo que tem afirmado através da documentação existente e das comunicações que dirigiu à autarquia.
O que esperávamos — e continuamos a esperar — é que a mesma disponibilidade para o diálogo exista por parte do Município.
O financiamento do teatromosca
Importará, igualmente, clarificar as referências públicas ao investimento municipal na Cultura e, em particular, ao financiamento do teatromosca. Reconhecemos, publicamente e inúmeras ocasiões, o recente aumento das verbas destinadas ao financiamento das companhias profissionais sintrenses, por parte desta autarquia,no concursode 2026, e subscrevemos o sublinhar da importância desse “investimento” para a dinâmica cultural do concelho, tal como foi afirmado pelo Senhor Presidente na referida reunião camarária.
No entanto, uma referência genérica a “um milhão de euros que [a autarquia] entrega aos grupos de teatro nos últimos tempos” não permite, por si só, compreender o financiamento específico da nossa companhia e corre o risco de dar a entender que o teatromosca, ou qualquer outra estrutura profissional do concelho, é financiado de forma abastada.
Nos anos mais recentes, os orçamentos anuais do teatromosca rondam os 500 mil euros. Desse montante, a companhia tem contado, em termos médios, com cerca de 240 mil euros de apoio do Ministério da Cultura, Juventude e Desporto /DGArtes e, em média, aproximadamente, 60 mil euros anuais da Câmara Municipal de Sintra.A restante receita necessária ao funcionamento da companhia e à realização da sua extensa atividade — que inclui a criação artística, a circulação de obras, a programação cultural do AMAS e de muitos outros espaços sintrenses (veja-se, a título de exemplo, a extensão da programação da última edição do festival MUSCARIUM, que decorreu de 4 a 20 de setembro), mediação cultural, intervenção comunitária, entre muitas outras áreas, junto dos mais variados públicos e envolvendo incontáveis parceiros — é obtida através de um conjunto diversificado de fontes públicas e privadas, nacionais e internacionais.
Esta diversidade de financiamento é também resultado do trabalho desenvolvido pelo teatromosca na procura de recursos que permitam manter uma atividade cultural regular e abrangente, que permitam a contratação em permanência de uma equipa de 12 profissionais, com contrato de trabalho, e uma série de outros profissionais contratados, pontualmente, consoante as necessidades da companhia e do AMAS, contribuindo, verdadeiramente, para a criação de emprego e o combate à precariedade no setor cultural, oferecendo importantes contributos para a economia local e com claros e comprováveis impactos culturais e sociais no território sintrense.
O que pedimos
O teatromosca não está a pedir um tratamento de exceção e muito menos teve alguma vez a intenção de “achincalhar” a Câmara Municipal de Sintra. Efetivamente, desde o primeiro momento, tem vindo a pedir esclarecimentos à proprietária do AMAS – Auditório Municipal António Silva e que seja encontrada uma solução concreta para que este equipamento cultural municipal possa cumprir a missão pública que lhe está atribuída e para no qual, inclusivamente, foi feito, recentemente, um significativo investimento no âmbito do PRR.
Por isso, tornamos a solicitar à Câmara Municipal de Sintra:
1. Uma reunião urgente entre o Município, o teatromosca e as demais entidades implicadas para analisar a situação criada pela decisão do condomínio;
2. Uma intervenção efetiva da autarquia enquanto proprietária do espaço, tendo em consideração as consequências da decisão para o funcionamento do AMAS;
3. A procura de uma solução que garanta o acesso do público ao auditório em horário noturno, em condições de segurança e de acordo com a programação prevista;
4. Uma maior articulação institucional entre o Município, o teatromosca e as entidades responsáveis pela gestão do Shopping Cacém, evitando que situações desta natureza se repitam.
O AMAS é um equipamento cultural municipal. A sua atividade não é apenas uma questão da companhia que o gere e programa: é uma questão de política cultural pública e de acesso da população à Cultura, tal como se encontra definido pela Constituição da República.
O teatromosca continuará disponível para dialogar e encontrar soluções.Mas continuará também a defender publicamente o seu trabalho e a sua honra, ao mesmo tempo que defende a missão do AMAS, o direito constitucional dos públicos a usufruir da sua programação e a necessidade de garantir condições para que este equipamento possa cumprir a função cultural que lhe foi atribuída.
Agualva-Cacém, 23 de setembro de 2026
Pela Direção do teatromosca
Pedro Alves, Maria Carneiro e Inês Oliveira









