O evento Outubro Rosa começou como apenas uma semana de Outubro em 1985 organizada pela Sociedade Americana de Cancro em parceria com a companhia farmacêutica que produzia o tamoxifeno, um fármaco imprescindível para nós ainda hoje.
Cancro da mama:
O cancro da mama é um problema grave de saúde pública, uma epidemia. Uma em cada oito mulheres vai ter cancro da mama durante a sua vida. Em 2022 houve 2.3 milhões de diagnósticos no mundo e 660 mil mortes. Estes números são 32% de todo o cancro diagnosticado, e 15% de toda a morte por cancro.
Numa região do país como a nossa em que temos uma forte presença de mulheres africanas, importa dizer que as africanas têm três vezes mais cancro que as mulheres portuguesas e que também têm maior mortalidade. Eu tenho a honra de já ter passado metade da minha vida dedicada a esta doença, trabalho em cancro da mama há 25 anos, e cada dia que passa estou mais consciente desta missão.
Factores de Risco:
Porque é que temos uma epidemia de cancro da mama? Por aumento da obesidade, sedentarismo, inatividade, consumo de álcool e tabaco e hábitos alimentares inadequados. Por alteração na nossa história reprodutiva e ginecológica: iniciar o período menstrual antes dos 12 anos, ter o primeiro filho depois dos 30 anos ou não ter filhos, ter a menopausa após os 55 anos, não amamentar, fazer uso prolongado de hormonas quer na substituição hormonal na menopausa como com a pílula anticoncepcional e ter mamas densas.
A exposição à radiação e a história familiar também aumentam o risco. Cada vez mais se procuram associações que possam aumentar o risco de cancro. Nestes fatores de risco emergentes estão o nível alto de glicose em jejum, o uso de antibióticos, o microbioma intestinal, a exposição a químicos em produtos capilares e cosméticos, incluindo protetores solares, nos alimentos, na água, na cozinha, incluindo nos grelhados e nos plásticos como bisfenol A. Estão nestes químicos os alteradores endócrinos que são substâncias que podem modificar o nível de estrogénio no organismo.
Recentemente, foi notícia um estudo que detetou químicos carcinogénicos para a mama em 921 produtos usados em contato com alimentos (1). Os níveis baixos de vitamina D, a exposição a luz à noite e a exposição a poluição do ar de partículas finas.
Jovens:
A Sociedade Americana de Cancro emitiu um relatório que mostra aumento de 1% por ano na incidência de cancro da mama entre 2012 e 2021. Mas para as mulheres nas décadas de 20, 30 e 40 anos este aumento foi de 1.4% e para as mulheres depois dos 50 anos este aumento foi de apenas 0.7%.
As jovens com cancro da mama enfrentam desafios muito próprios que vão desde a imagem e vida conjugal até à maternidade, carreira profissional e vida pessoal no geral. Como o cancro da mama afeta mais mulheres na menopausa, as raparigas jovens quando palpam um nódulo na mama podem ter pré concepções e achando que não é nada não venham ter connosco.
Na nossa ULS, no Hospital Fernando Fonseca, temos dedicado atenção especial a este grupo de mulheres e temos um grupo de miúdas chamado o Sub 35 onde digitalmente elas se amparam e ajudam umas às outras no seu percurso da doença, especialmente na quimioterapia, cirurgia, radioterapia e terapêutica endócrina que quase todas fazem.
Rastreio:
O rastreio de base populacional, em todas as mulheres são chamadas, em Portugal é feito por convite que nos chega pelo correio para irmos fazer uma mamografia às carrinhas da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Essa imagem tem depois uma dupla leitura cega por dois radiologistas especializados em imagem mamária. As mulheres depois podem ir levantar o seu exame. As que tiverem um exame anormal serão convocadas para o repetir e depois fazer uma biópsia, se for caso disso.
É importante que fique claro que sem uma biópsia não se faz o diagnóstico de cancro da mama. Em linha com o aumento do cancro da mama nas jovens a Direção Geral da Saúde em Portugal já baixou a idade do rastreio dos 50 para os 45 anos e nos Estados Unidos há organizações a recomendar baixar para os 40 anos.
O rastreio tem contribuído para baixar a mortalidade por cancro da mama porque tem conseguido detetar cancros numa fase precoce que ainda não são palpáveis pelas mulheres nem pelos médicos. Devemos participar no rastreio de cancro da mama quando formos convocadas.
Sintomas:
No entanto, ainda há muitas mulheres, especialmente as jovens e mulheres africanas porque nos PALOPs não há rastreio, que nos chegam por palpam um nódulo na mama. Que outros sinais e sintomas devemos ter em conta?
Uma massa debaixo do braço na axila que geralmente significa um gânglio linfático já com tumor, a mama inchada ou espessa, a pele da mama irritada, repuxada ou com aparência de casca de laranja, pele da aréola ruborizada ou descamativa, bico da mama para dentro (invaginação), dor na mama, corrimento mamilar e alteração no tamanho ou formato da mama. Devemos sempre dar atenção à mulher que nos chega com queixas clínicas da mama e realizar exames de imagem.
Os Colegas da ULS que trabalham em cuidados primários sabem que estamos no Hospital Fernando da Fonseca com uma equipe dedicada a cancro da mama de excelência prontos para receber as doentes.
Tratamento e sobrevivência:
Nas últimas duas décadas e meia assisti a uma revolução no tratamento desta doença. Fazemos cirurgias cada vez mais sofisticadas e menos mutilantes e reconstruímos a mama com perícia se tivermos de fazer mastectomia.
A radioterapia, uma modalidade essencial nos carcinomas da mama de alto risco e em todos os carcinomas da mama de baixo risco em que fazemos cirurgia conservadora, é sofisticadíssima e praticamente isenta de riscos e complicações. Os oncologistas têm à disposição uma miríade de fármacos com os quais tratam esta doença em todas as suas mais subtis declinações.
Cada doente é um caso e para cada caso tomamos decisões e afinamos estratégias. Temos uma paleta de muitas cores para desenhar e colorir a forma como tratamos cada mulher. Em consequência de todos estes esforços, em 1974, 25% das mulheres que tinham cancro da mama morriam nos 5 anos após o diagnóstico, em 2000, este número baixou para 12%, e, em 2024, ainda baixou mais, para 9%. Se olharmos apenas para tumores menores que 2cm e que não invadiram a axila, então este número é só de 1%.
Portanto, vale mesmo a pena fazerem o rastreio e virem ao médico se sentem alguma anomalia na mama!










