Duzentos anos após a morte de D. Pedro IV de Portugal e primeiro Imperador do Brasil, a memória do “Rei-Soldado” ganha nova vida no Palácio Nacional de Queluz. A partir desta terça-feira, 24 de setembro, data em que se assinala o falecimento do monarca em 1834, os visitantes podem ver a reconstituição inédita do leito de aparato onde o soberano passou os seus últimos momentos, na Sala de D. Quixote, o mesmo espaço onde nascera 35 anos antes.
A iniciativa é da Parques de Sintra, que sublinha o carácter simbólico da peça. “Este leito não é apenas mobiliário, é um marco de um momento que mudou Portugal para sempre”, afirmou João Sousa Rego, presidente do Conselho de Administração, destacando o impacto da morte do rei na queda do Antigo Regime e na afirmação do Liberalismo.
A reconstrução exigiu investigação detalhada e recurso a artesãos de marcenaria e costura, de forma a reproduzir fielmente a peça desaparecida em 1934, após um incêndio no palácio. Madeira de espinheiro, seda adamascada azul e cassa branca bordada foram alguns dos materiais identificados em inventários históricos e agora recuperados.

A morte que marcou a história
Gravemente doente em 1834, D. Pedro escolheu morrer no mesmo palácio onde nascera. Rodeado pela mulher, D. Amélia, pela filha D. Maria II e por aliados políticos, transformou a sua partida num ato de afirmação política: derrotado o Absolutismo do irmão, D. Miguel, o rei quis que a sua última imagem pública fosse ligada ao coração do Antigo Regime.
O gesto não foi esquecido. A Sala de D. Quixote converteu-se em lugar de memória, descrito com emoção por visitantes ilustres e, sobretudo, pela filha mais nova do monarca, D. Maria Amélia, que em 1851 recordava cada detalhe do quarto, apesar de ter apenas três anos quando o pai morreu.
O leito original foi perdido no incêndio de 1934, sendo substituído por outra cama das coleções reais. Em 2022, a Parques de Sintra lançou o projeto de reconstrução, apoiado em aguarelas, fotografias e inventários do século XIX.
O trabalho, concluído ao fim de três anos, devolve à Sala de D. Quixote um dos seus elementos mais emblemáticos.
A sala, situada na ala privada dos monarcas e decorada com pinturas inspiradas em Cervantes, teve várias utilizações ao longo do tempo. Mas a morte de D. Pedro IV, que ligou de forma indelével o espaço à transição para o Liberalismo, permanece como a sua memória mais duradoura.









