Comer é uma tarefa maioritariamente social para o ser humano e acontece todos os dias. Contudo, será assim tão fácil para as nossas crianças? Enquanto adultos, partimos do princípio de que, se uma criança tiver fome, irá comer. Mas, afinal, o que envolve realmente esta tarefa?
Comer requer a integração de vários sistemas (motor, sensorial, respiratório e emocional) ao longo do desenvolvimento. Nos casos em que a integração destes sistemas não ocorre em simultâneo, a criança necessita de mais experiências positivas para conseguir comer com conforto e segurança. Precisa de coordenar os movimentos da língua, dos lábios e da mandíbula, tolerar diferentes texturas, cheiros e temperaturas, e ainda coordenar a respiração durante a mastigação e a deglutição. Perceber que comer é uma competência aprendida conduz-nos, então, à seguinte pergunta: o que podemos fazer para facilitar a sua aquisição?
Em primeiro lugar, é imprescindível criar um ambiente seguro e previsível, onde a criança consiga sentir-se tranquila e sem pressão. Fornecer rotina e tranquilidade à mesa, sem julgamentos, permitirá que a criança explore livremente os alimentos ao seu ritmo.
Outro aspeto essencial na aprendizagem da alimentação é permitir que a criança explore os alimentos sem necessitar, obrigatoriamente, de os ingerir. Devemos permitir tocar, cheirar, observar e brincar com a comida, pois estes passos são tão importantes quanto comer. Forçar, insistir, negociar ou distrair quando a criança demonstra desinteresse pode aumentar a ansiedade ou fazer com que associe a alimentação a experiências negativas.
No decorrer do processo de alimentação, podemos estar atentos a alguns sinais de alerta, tais como: recusa de alimentos, redução significativa do repertório alimentar, vómitos, engasgamentos frequentes ou desconforto à mesa, entre muitos outros. Dar o exemplo no momento da refeição, respeitar os sinais de saciedade que a criança apresenta e procurar apoio quando as dificuldades persistem ao longo do tempo são estratégias fundamentais. As dificuldades alimentares raramente apresentam uma única causa. Por isso, para uma intervenção bem-sucedida, é necessária uma abordagem multidisciplinar, que deverá envolver diferentes profissionais, nomeadamente o terapeuta da fala, o nutricionista, o pediatra, o psicólogo e o terapeuta ocupacional. Cada uma destas áreas contribui com o seu conhecimento específico, permitindo uma compreensão global das dificuldades da criança e potenciando um maior sucesso na intervenção.
O caminho para facilitar a aquisição desta competência passa, acima de tudo, por compreender que cada criança tem o seu ritmo e que aprender a comer é um processo que exige tempo, experiências positivas e acompanhamento adequado, quando necessário.
Inês Gonçalves
Terapeuta da fala na Vaz Nobre Clínica









